sábado, 5 de dezembro de 2009

Dicionário Caipiracicabano 10

Arma de gato - Expressão filosófica. Como se sabe, gato tem sete almas, pelo menos em Piracicaba. Logo, pessoa com arma de gato é que não morre nunca, fantasma que fica por aí. Muié viúva de marido lazarento tá sempre sonhando com ele e reclama: “Aquele fiadiumcorno num morre nunca, tá sempre apareceno em meus sonho, o lazarento do arma de gato.”


Armá o laço - Para os ignorantes e não-iniciados no refinado dialeto caipiracicabano, armá o laço pode parecer coisa de tocaia, de traição. Não é nada disso. Armá o laço é o mesmo que amassá o barro ou sortá um barro. Ou seja, cagar. O uso do armá o laço, no entanto, é exclusivo da pessoa, questão íntima. Não se falava, por exemplo, que o Fernando Collor “armô o laço pro Brasil”., quando seqüestrou a poupança da negadinha. Naquele caso, a expressão foi cagar mesmo. “Eu vô armá o laço”, é a expressão correta de quem vai cagar, atender a necessidades fisiológicas.

Armoçá a janta - Atualmente, armoçá a janta não tem grande significado. Mas antes tinha. O Gregório Marchiori, com sua fama de garanhão, sempre era advertido por pai de namorada: “Mai ocê, cum minha fiinha do coração, tem que sabê: na minha casa num tem nada de ocê querê armoçá a janta. Ocê só come minha fia se casá antes.” Logo, antigamente, não era de bom tom armoçá a janta, ou comê a moça antes de casá. Quanto ao Gregório, ele ficou mais em jejum do que armoçô janta.

Arrancá o coro - Há dois significados para essa expressão. O primeiro, no sentido de bater. “Eu vô arrancá o coro dessa fiadaputa”, diz o marido traído em relação à sua muié infiel. Não arranca nada, mas promete. O sentido, pois, é de bater, fazer ameaça. O outro é de exploração, muito usado em relação ao comércio e comerciantes. Quando retornava da Europa, Luciano Guidotti, o mais famoso prefeito de Piracicaba, costumava dizer: “Óia, os treco que eles vende lá é morfioso de bão. Mai eles arranca o coro, puta merda.”

Arranca-rabo - Expressão que tem o significado de briga, confusão, desordem. É o mesmo que cu-de-boi, tedeo. Se nego chega em casa todo feliz, assobiando, a muié logo vai, insinuante, cheirar o cangote dele. Se o cheiro é diferente, a desgraçada avisa: “Agora ocê vai tê que expricá. Nói vai fazê um puta dium arranca-rabo que ocê vai vê.” E o arranca-rabo do cu-de-boi é ouvido pela vizinhança toda. É muito rara a noite em que não sai arranca-rabo nas pacatas noites caipiracicabanas.

Arranchá - Sinônimo de hospedar-se. Vem de rancho, um lugar. Hotel, casa da sogra, motel, palácio, todos esses são lugares de arranchá. Nelson Torres, em suas viagens pelo mundo, quando lhe perguntam onde irá se hospedar, fica irritado: “Hospedá? Num vô hospedá merda ninhuma. Vô arrancha num puta dium casarão que comprei ao lado do palácio do Rubinho Silveira Mello, adonde ele fica sempre arranchado.”

Arrastá seda - Não se trata apenas de uma expressão peculiar, mas de uma atitude. Arrastá seda pode ter o significado de puxar-o-saco. Nego que puxa-o-saco do outro tá arrastando seda. Há muito disso em Piracicaba. Quando nego pára com Mitsubishi à porta de restaurante, multidão de garçons aparece, para arrastá seda. Nego petulante, arrogante é, também, um arrasta-seda, o que transforma a expressão verbal em adjetivo. Por outro lado, basta estar bem arrumado para se ouvir alguém falar: “Nossa, onde se vai de ansim, arrastando-seda?”

Nenhum comentário: