domingo, 6 de dezembro de 2009

Dicionário Caipiracicabano 11

Arre! - Piracicabano é, antes de mais nada, nego culto, com curtura pra mai de metro. O grande caipira Amadeu Amaral conta que, no Auto da Barca do Purgatório – do glorioso português Gil Vicente – já existia a expressão “arre!”. Em Piracicaba, arre! É o mesmo que num encha o saco, um clássico da linguagem inculta e bela. Marido, quando muié lhe enche o saco, berra: “Arre, muié! Pruquê ocê num vai peidá n’água inveis de me inche o sapicuá?”


Arribá - Doente piracicabano nunca sara, arriba. Nos chás do Club da Lady, o principal assunto da muierada são as doenças dos maridos, quase todos com mais de 45 anos. Uma lady pergunta à outra: “E seu marido, como tá aquele morfético?” E a outra responde: “Puis é... O morfético do meu marido tá do memo jeito, cuitado. Pegô uma morfiosa diuma gripe e num tem jeito de arribá.” Só que, fora de casa, os maridos estão todos, geralmente, arribados.

Arrodeá - É o mesmo que rodear, dar voltas. Só que arrodeá tem algumas características próprias. Pode ser: proteger-se, cercar-se. Usineiro da região vive arrodeado de segurança. E, morrendo de medo de seqüestro, sempre pergunta à negadinha: “Tem nego arrodeando nói?” Outros preferem tá arrodeado de muié. E muié bonita fica sempre arrodeada de hóme. Coisa bunita de se vê.

Arrodeá Catedrar - No entanto, pode servir para um passeio novo em Piracicaba, festa das festas: arrodeá Catedrar, coisa nova, do começo do século, moderníssima. Foi um escândalo de promoção: “Vamo fazê reforma da praça centrar, vamo fazê.” Abriram umas duas ruazinhas e o povo parmeô o Prefeito (V.parmeá) : “Oba, oba... Agora nói podemo arrodeá a Catedrar.” Ou seja: fazer a curva, dar uma voltinha em torno da praça, passeio turístico. (V. rodeá)

Artero - Essa palavra pode ser, conforme o uso e sentido, substantivo ou adjetivo. As pessoas que se dedicam às artes, por exemplo, são artera. Nas escolas, ensina-se, para ilustrar, que “Van Gogh foi um puta dium artero, um dos maior da humanidade”. E isso é elogio. Por outro lado, uma criança é sempre artera, com suas traquinagens. Mãezinha piracicabana, quando jovem, costuma dizer, de seu filhinho: “Ah! ele é um fiadaputa dium artero.” Trata-se, também, de elogio de mãe, para o filhinho traquinas, engraçadinho.

Arto - Pronúncia piracicabana do adjetivo alto. Não há nada, na região de Piracicaba, que seja alto. Tudo é arto. Quando nego se suicida, atirando-se do Salto de Piracicaba, o povo comenta: “Ele se pinchô lá do arto do sarto.” Por outro lado, basta observar mais atentamente para se ver que a maioria das muié de Piracicaba anda tudo de sarto arto. Por outro lado, o nego pode tá arto sem que isso tenha alguma coisa a ver com a sua própria altura. “Ih, hoje tô arto”, diz o neguinho que amarrô o fogo, que se embebedou.

Arto do pioio - Como se sabe, pioio é piolho, segundo o refinado dialeto caipiracicabano. Arto do pioio significa o alto da cabeça, a parte superior dela. A Paula, rainha do basquete, quando chegou a Piracicaba, estava treinando e bateu a cabeça. O médico do time lhe explicou: “Óia aqui, Paula, isso num foi nada. Ocê só levô uma batida no arto do pioio.” Paula ficou indignada, respondeu: “Eu bati a cabeça, dotor, o senhor num tá vendo? “ Com o tempo, a Paula entendeu.

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