terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Dicionário Caipiracicabano 13

Assentá - Não tem qualquer referência a assento, a sentar-se. O verbo assentá se usa para indicar estado de espírito ou comportamento. A pessoa que assentô ou se tornou assentada nada mais fez do que se acalmar, ter bom comportamento. Mãe piracicabana costuma dizer, orgulhamente, de sua fillhinha recém-casada: “Ih, ela era espetaquera, fogueta. Agora qui casô, a minina apagö o fogo do rabo e assentô. Tem que vê que minina assentada que ela ficô.”


Assombrá porco - A origem dessa expressão é um mistério. No entanto, ela existe na refinada região caipiracicabana. Tem o significado de pedir que o outro não aborreça, não importune, não encha o saco. Quando a mulherzinha se chega toda doce e assanhada perto do marido, encostando o pé debaixo do lençol, o nego fala, com gentileza: “Vá, vá, vá.. Vá assombrá porco! Num vê que eu tô cansado?”

Assuntá - Verbo com diversas utilidades e sutilezas. Assuntá vem de assunto e significa informar-se, prestar atenção. Professora, quando vê a criançada distraída na sala de aula, vai logo advertindo-a: “Ô, negadinha, qué assuntá no que eu tô falano?” Pode, porém, ter o significado de bisbilhotar. Em motel, nego sempre pergunta, desconfiado, ao recepcionista: “Ocê garante que ninguém vai assuntá nói lá no quarto?” Usa-se com o sentido de averiguar: “Eu tô quereno assuntá se aquela muié tá a fins de mim...” E, também, no de compreender ou de não compreender. “Ocê assuntô no que eu falei?” – pergunta um. O outro responde: “Eu prestei atenção, mai ainda num assuntei nada.” Um verbo, portanto, eclético.

Até o cu fazê bico - Quase tudo que se faz em excesso, exageradamente. Quando se faz o que se fez excessivamente, diz-se que foi feito até o cu fazê bico. Colunista social, na gloriosa imprensa piracicabana, costuma comentar as grandes festas em clubes e salões sociais: “A negadinha comeu e bebeu até o cu fazê bico, de tão bão que tava.” Coisa fina.

Até parece - Expressão muito semelhante ao vê lá! A sutileza está na doçura, pois o até parece revela uma humildade e uma timidez menos agressivas do que o vê lá! Quando, em Piracicaba, se teciam loas para a Paula, enaltecendo-lhe a beleza, as suas qualidades como Rainha do Basquete, a doce Paula virava o zóio para o lado, fazia um biquinho, dizia: “Ai, que exagero! Até parece...”

Atentá - Os não iniciados em nosso refinado dialeto podem pensar que atentá significa estar atento, prestar atenção. Não é nada disso, merda nenhuma. Atentá é enchê o saco, infernizar a vida do outro, provocar. A doce mãe piracicabana dá, diariamente, gritos histéricos, querendo estrangular os filhinhos: “Num güento mai, ocêis só atenta eu, vai dexá eu loca, cambada de fiadiuncorno.” E o marido, chegando: “Seus fiadaputinha do caraio, qué pará de atentá sua mãe?”

Atrasero - Na região de Piracicaba, não existe pernil. O que existe – e com boa qualidade – é o atrasero. Dona de casa, sempre atenta, chega ao açougue e pede: “Óia, eu quero um atrasero. Mai dos bão, falô?” O açougueiro sabe tratar-se de pernil. Por outro lado, atrasero é, em algumas oportunidades, como se chama o bumbum das pessoas, especialmente de muié, óbvio. “Óia só que atrasero que ela tem.” – costuma-se dizer quando muié bunduda passa pelas ruas. Só que, neste caso, o atrasero não tem qualquer conotação erótica.

Áua - Ora, áua é água, quem não sabe disso? O poeta Lino Vitti tem versos imortais: “As áua de nosso rio era especiar. Tinha áua quente, áua morna, áua fria. Agora, as áua de nosso rio são um rebosteio só.”

Avaluá - Em Piracicaba, as pessoas nunca avaliam nada. Quando o fazem, avaluam. Quando a Belgo Mineira foi adquirir uma empresa da Dedini, o negócio estava complicado de sair. O Tarcísio Mascarim perguntava por quanto eles iam avaluá. Os nego da Belgo diziam que iam avaliar por tanto e mais tanto. Tarcísio se ofendia: “Num quero sabe dessa merda de avaliá. Ou ocêis avalua ou num avalua, pare de enchê o saco com esse tar de avaliá.”

Avuá - Tudo o que tem asas, avua. Piracicabano – como qualquer paulista – gosta de passear em aeroportos. É um programão ver “vião avuá”. Mas passarinho também avua, helicóptero também avua e assim por diante.

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